Pleonasmo vs. justaposição

batatadoce

A combinação vi primeiro no livro do Francis Mallmann, Sete Fogos: batata doce e mel. Achava pleonasmo juntar doce com mais doce. Mas isso foi antes de experimentar na boca. Os dois doces parecem correr em pistas distintas. O mel vai pela expressa, rápido e cheio de adrenalina. Na pista local, o doce da batata vai olhando o caminho, distraído. Seu melado vai se abrindo só aos poucos do amido – como fumaça de escapamento de velho calhambeque. É uma bonita justaposição, que destaca diferenças.

sanpo

O que me mordeu: linguado

Coisa de japonês: mesmo filetado, coberto em farinha, mergulhado em óleo fumegante, e pronto para ser devorado, o peixe tem que parecer feliz e saltitante no prato à sua frente.

O Sanpo, isakaya recém-aberto bem no começo da Fradique Coutinho, em Pinheiros, levou isso bem a sério. Seu hirame karaagê (R$ 25) tem a espinha do linguado frita formando curvas, para lembrar o tempo em que o peixe ainda flanava despreocupado no fundo do mar.

“Dá pra comer tudo: o rabo, os ossos e até a cabeça”, foi desafiando a atendente. Pois não! O croc-croc das várias partes, com diferentes mordidas, além de divertido, estava uma delícia. E caiu bem com os nacos tenros de carne empanada. Eles foram servidos ali mesmo, por cima do que jazia também como uma simpática (e comestível) travessa. A apresentação bonita e bem feita – quando se fala em japonices – já valeu por meia refeição.

Me lembro vagamente de outro lugar na cidade com apresentação do peixe assim. Alguém sabe? Há algum outro prato de linguado que vale a pena por aí? Dicas são sempre bem-vindas nos comentários.

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PS.: Tanta fritura combinou bem com o kimchi da casa (R$  10).  Preparado pela mãe de um dos cozinheiros, o fermentado coreano estava naquele fino diapasão de equilíbrio entre salgado, ácido, apimentado e picante. Fantástico. O Evandro, um dos donos do lugar, confessou a vontade de trazer mais e mais desses fermentados para o cardápio. Já imaginou um balcão inteiro só com variações de kimchi e outras conservinhas coreanas? Salivei.

Come-se, uai!

Por que fiquei tanto tempo sem passar lá no blog da Neide Rigo?

Tenho algumas desculpas. Meu RSS “eclipsou”, junto com o Google Reader. A Neide é anti-social-media, sem contas em Facebook, Twitter ou Instagram (sim, isso existe, em pleno 2014!). Então, no meio de tanta bobagem das inúmeras timelines, o que realmente importa fica pra depois.

O Come-se é – e isso é indiscutível – garantia de textos de primeiríssima qualidade. Quando caio lá, aproveito para compensar todo o tempo perdido. E fico algumas horas numa leitura voraz dos posts diários (sim, isso também ainda existe, em pleno 2014!). É tudo sempre inspirador e há tanto para aprender…

Os relatos de sua recente viagem à Serra da Canastra (que começam aqui) são imperdíveis. Esse vídeo, que roubei de lá, é só um pequeno exemplo das pérolas que a Neide consegue garimpar:

(o vídeo, além de informativo, é bom para matar saudades desse sotaque: “dá uma moiadim no porviiii”)

Dessa vez, a visita ao Come-se valeu mais. Descobri, num cantinho da home, o campo “Receba os textos do Come-se por email”. Uai? Agora tem mais desculpa não, sô!

comese

Um blog para quem tem fome