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Pleonasmo vs. justaposição

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A combinação vi primeiro no livro do Francis Mallmann, Sete Fogos: batata doce e mel. Achava pleonasmo juntar doce com mais doce. Mas isso foi antes de experimentar na boca. Os dois doces parecem correr em pistas distintas. O mel vai pela expressa, rápido e cheio de adrenalina. Na pista local, o doce da batata vai olhando o caminho, distraído. Seu melado vai se abrindo só aos poucos do amido – como fumaça de escapamento de velho calhambeque. É uma bonita justaposição, que destaca diferenças.

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Pudim do Arturito: doce mais doce que doce de batata doce

Já cometi milhares de vezes a frase “não gosto de doce muito doce”. Descobri recentemente, no Arturito, que essa categoria tem variações. Há doces – e doces. Não é pra generalizar.

O pudim de laranja (R$ 20) vinha em cima de um bolinho de limão siciliano e era servido com muito doce de leite. Doçura extrema! Nem existia acidez de limão ou laranja. Só os perfumes que enganavam assim o paladar: “tá sentindo esse cheiro aí? come mais uma colherada pra você me entender melhor”. E assim, colherada a colherada, foi-se a sobremesa inteira.

Ajudou também a versão mais ralinha de doce de leite da casa. Bem escuro, com um quê de caramelo queimado, muito brilhante e incrivelmente rico.

O segredo do tal doce de leite está no “Cozinha de Alma para a Mulher Sensível (e para os homens que amam as mulheres sensíveis que cozinham para elas)”. Trata-se de um ensaio de livro de receitas, com texto muito personalista. Veem-se a voz e os trejeitos da chef Paola Carosella em cada linha do texto. Olha que delícia:

“Devo ter feito doce de leite umas três vezes por semana, ao longo de sete anos, todas as semanas, todos os meses, entre 1999 e 2006.

Então, fazendo uma conta rápida, devo ter cozinhado paneladas de doce de leite umas 1.008 vezes. Se cada receita levava mais ou menos 10 litros de leite, eu já fiz então uns 10 mil litros de leite virar doce de leite.

Seguindo com as contas, se uma vaca, mais ou menos alegre e mais ou menos peituda, dá uns 40 litros de leite por dia, foram necessários 252 dias de vacas alegres e peitudas para produzir leite suficiente para fazer grande parte do doce de leite que já fiz na minha vida.

Haja tetas.”

Para quem gosta da comida de lá, é download obrigatório.

sanpo

O que me mordeu: linguado

Coisa de japonês: mesmo filetado, coberto em farinha, mergulhado em óleo fumegante, e pronto para ser devorado, o peixe tem que parecer feliz e saltitante no prato à sua frente.

O Sanpo, isakaya recém-aberto bem no começo da Fradique Coutinho, em Pinheiros, levou isso bem a sério. Seu hirame karaagê (R$ 25) tem a espinha do linguado frita formando curvas, para lembrar o tempo em que o peixe ainda flanava despreocupado no fundo do mar.

“Dá pra comer tudo: o rabo, os ossos e até a cabeça”, foi desafiando a atendente. Pois não! O croc-croc das várias partes, com diferentes mordidas, além de divertido, estava uma delícia. E caiu bem com os nacos tenros de carne empanada. Eles foram servidos ali mesmo, por cima do que jazia também como uma simpática (e comestível) travessa. A apresentação bonita e bem feita – quando se fala em japonices – já valeu por meia refeição.

Me lembro vagamente de outro lugar na cidade com apresentação do peixe assim. Alguém sabe? Há algum outro prato de linguado que vale a pena por aí? Dicas são sempre bem-vindas nos comentários.

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PS.: Tanta fritura combinou bem com o kimchi da casa (R$  10).  Preparado pela mãe de um dos cozinheiros, o fermentado coreano estava naquele fino diapasão de equilíbrio entre salgado, ácido, apimentado e picante. Fantástico. O Evandro, um dos donos do lugar, confessou a vontade de trazer mais e mais desses fermentados para o cardápio. Já imaginou um balcão inteiro só com variações de kimchi e outras conservinhas coreanas? Salivei.