Tag Archives: japones

… os nossos japoneses…

sushiyasuda_salao

Nem me abalei com a rabujice do atendente do SushiYasuda no telefonema de reserva. Afinal, se o sushi é bom, faz parte a gente ser um pouquinho maltratado: “só temos lugar às 18h30. E vocês tem que terminar de comer antes das 20h, já que temos outras pessoas na fila… Nos ligue 24 horas antes para confirmar, senão sua reserva cairá automaticamente. E não se atrase! Há uma tolerância de somente 15 mininutos.” Aceitamos resignados as condições, já que o SushiYasuda é tido como um dos melhores sushis de NY. Só perdendo para os inacreditavelmente caros KurumaZushi e Masa.

De tão assustados com a severidade do SushiYasuda, chegamos 15 minutos antes ao restaurante. “Será que podemos entrar?”, perguntei à Anna. “Ainda não”, disse ela olhando o relógio, “chegar mais cedo é deselegante”. Pra passar o tempo, bisbilhotávamos o salão através da grande janela. Pensávamos que àquela hora – o dia ainda muito claro –, não haveria ninguém no salão clean, todo feito de bambu.

Mas – surpresa! – o lugar estava lotado. No balcão de sushi, só nossos dois apertados lugares estavam vagos. Três sushimen, que mais pareciam funcionários da linha de montagem da Toyota, cortavam freneticamente peixes, amassavam apressados os bolinhos de arroz. Logo que nos sentamos, o cardápio já em nossas mãos, o garçom queria saber o que beberíamos. Pra dar mais adrenalina à cena, eu ficava me policiando, pensando: “temos só 90 minutos, 85 agora…”

E, no pique, fomos devorando nervosos os sushis (por volta de US$ 8 a unidade) que foram aparecendo: todos pequeninos, com bolinhos meio desleixados, a cada hora de um tamanho. Tirando um torô com gosto de óleo Singer – que não estava entre as recomendações do dia –, todos os outros peixes eram muito frescos, com sabor sutil de mar. O arroz, porém, vinha com aquela acidez velha no retrogosto. Um azedo que nada complementa, só sobra no paladar. Mas tínhamos pouco tempo: na pressa pedíamos, na ansiedade comíamos. E, quando cansamos, pedimos a conta, exaustos. Olhando o relógio, tínhamos batido um recorde: havíamos jantado em 45 minutos!

sushiyasuda_polvo

A severidade no SushiYasuda é maligna, militar, fordista: saia-que-preciso-girar-as-mesas! Pode parecer masoquismo, mas lembramos com saudades da rabugice do Jun Sakamoto, de seu sushi. Suspeito que seu verdadeiro segredo não seja um vinagre especial, uma técnica de preparação secreta. O ingrediente mágico, aquilo que dá a seu arroz a mais suave das harmonias e a mais etérea das texturas, talvez seja o seu rigor. Não esse do SushiYasuda, que te apressa e te constrange, mas aquele que te força a se concentrar, a contemplar a comida com propriedade, sem pressa. E que faz você sentir que cada sushi foi feito especialmente para você.

Saímos de lá tristes por termos perdidos uma refeição, havia tantos outros lugares em Manhattan que gostaríamos de conhecer… Ao mesmo tempo, dava pra sentir no fundo uma pontada de orgulho e felicidade. Era a revelação de que, no Brasil, temos sushis melhores que em Nova York.