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Momotaro (ou, um izakaya na Vila Nova Conceição é possível?)

Publicado originalmente no blog Mesa ou Balcão?, da revista ALFA.

Lembra de quando todo novo restaurante francês tinha “bistrô” no nome? Restaurantes empompados – com uma brigada gigantesca, menus elaborados – queriam por alguma razão ser batizados com essa palavrinha mágica. Mesmo sabendo que, lá em Paris, bistrô só vale para casas pequenas, familiares, que servem pratos simples, em menus fixos acessíveis.

Pois agora, “izakaya” é o novo “bistrô”.

Todo novo restaurante japa – independente do tamanho ou da proposta – parece querer se vender com essa palavra misteriosa e hypada. Lá no Japão, izakaya é basicamente um boteco informal, pro povo beber umas depois do expediente. Servem-se pequenas porções de comida, geralmente para compartilhar, numa inútil tentativa de resguardar os clientes dos efeitos colaterais do álcool.

O chef Adriano Kanashiro, ex-Kinu (do Grand Hyatt São Paulo), acaba de inaugurar o Momotaro, um superempreendimento na rua Diogo Jácome, 591, na Vila Nova Conceição, que pretende ter “o espírito e a informalidade de um izakaya”. Mas é difícil ver alguma informalidade num restaurantão com dimensões e decoração dignas do endinheirado bairro às margens do Parque do Ibirapuera.

A comida do chef Kanashiro – um dos grandes expoentes da comida japonesa inventiva – também não é o que se pode chamar de simples.

No Japão, izakayas raramente servem sushis. No Momotaro, o cardápio se baseia neles. Não há niguiri sushis tradicionais. Há sushis enrolados (uramaki, hossomaki, hot-roll), prensados (batera), em forma de bolinha (temarizushi). Seus peixes são sempre combinados com algum outro ingrediente: ovas, cebolinha, foie, cogumelos, frutas…

Há também várias entradas, alguns tempurás e uma interessante seção de saladas, chamada Gurin (leia como um japonês leria “green”). A carta de sakês e shochus (o destilado japonês) faz bonito pela variedade e qualidade.

Tradicionalista que sou, já vou adiantando que o Momotaro não é o meu tipo de restaurante japonês. Os peixes e frutos do mar estavam todos muito frescos. Mas senti falta de um arroz mais firme, de sabores mais limpos.

Mas é preciso lembrar da escola de sucesso do chef Kanashiro. E, dentro dela, há ideias muito interessantes. Delicados croutons de tofu dão uma nova textura à salada de tomates e salmão marinado (R$ 32). Uma deliciosa farofa crocante de wasabi contrasta muito bem com o temarizushi de atum (R$ 33).

Algumas combinações são menos acertadas: um pouco de acidez iria bem na entrada de lulas e shimeji (R$ 28), e não deu pra entender a mistura de tomate, tempurá de abobrinha e quinoa no uramaki Momotaro (R$ 18).

Se o Momotaro fosse um izakaya de verdade, eu diria que o custo-benefício é ruim. Mas izakaya de verdade não tem arquitetura cenográfica, lindas louças da Hideko Homna, iluminação ambiente na medida… Basta deixar pra lá a tradução da palavrinha hypada que está tudo certo.

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Em tempo. O chef Tsuyoshi Murakami, do premiadíssimo Kinoshita, prepara para o primeiro semestre a abertura de seu próprio izakaya, o Kappo. Atenção para a localização: o JK Iguatemi, o futuro shopping mais luxuoso da cidade.